A Vida Privada dos Hipopótamos

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Sinopse

A Vida Privada dos Hipopótamos mostra a história de Christopher Kirk, um técnico de informática americano que se muda para Colômbia após ter lido um artigo sobre os hipopótamos de Pablo Escobar. Também é um filme sobre a história de V., um relato que Kirk obsessivamente conta e reconta sobre a sua paixão por uma misteriosa mulher nipo-colombiana, história que pode ou não ter a ver com a sua prisão em 2009 no Brasil por tráfico internacional de drogas. Além disso, é também um filme sobre dois diretores. Documentário.

Crítica

Não é só no título que A Vida Privada dos Hipopótamos se mostra um trabalho bastante curioso da dupla de diretores Maíra Bühler e Matias Mariani. Ao recontar a história do norte-americano Christopher Kirk, deixando que o próprio tome as rédeas da narração, somos apresentados a uma trama apaixonada e obsessiva, de um homem que mudou sua vida para ficar com a mulher que ama. Mas, será que é isso mesmo?

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Christopher Kirk é um técnico em informática que, lá pelas tantas, resolve viajar até a Colômbia. Seu motivo? Ele ficou sabendo que Pablo Escobar, quando ainda era um dos homens mais ricos do mundo, resolveu levar ao seu palácio alguns hipopótamos, animais que não são nativos daquele país. Depois da morte de Escobar, os bichos ficaram por lá e acabaram se reproduzindo e fincando residência. Nesta viagem, Kirk conhece uma misteriosa nipo-colombiana, que ele nos apresenta com o pseudônimo V. O relacionamento dos dois é estranho, pois ela nunca parece se abrir realmente para o namorado. Utilizando seu conhecimento em computadores, Kirk invade a conta de e-mail de V e descobre muitas coisas que não gostaria de saber. Desde o início sabemos que o protagonista está cumprindo pena em uma prisão brasileira, mas não sabemos o motivo. Será que o relacionamento com esta mulher foi o estopim para esta detenção?

Algo que é interessante ficar claro – e isto é logo posto pelos diretores através de comentários de amigos de Kirk – é que o nosso narrador não é muito confiável. No primeiro ato do documentário, ele é comparado ao personagem Pinóquio, o menino de madeira que sonha ser real. Como se Christopher quisesse que suas histórias fossem verdadeiras e não se importasse em mentir para transformá-las em tal. Os diretores tiveram acesso ao HD do retratado e puderam ter acesso a fotos e seus arquivos de mensagens. Então, quando ele conta que conheceu V depois de ela ter derrubado uma bebida em seu colo, temos uma foto do momento. Em vez de ser uma prova cabal da verdade, mais parece algo produzido, fabricado para tanto.

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Nunca vemos V. Ela não é entrevistada pelos documentaristas e a única foto que vemos dela é desfocada e distante. Segundo os diretores, a não aparição da mulher foi algo deliberado, uma escolha narrativa, uma forma de transformá-la em uma espécie de Capitu. E este paralelismo é muito feliz se formos lembrar que o personagem Bentinho, protagonista da obra de Machado de Assis, Dom Casmurro, era igualmente um narrador pouquíssimo confiável, assim como é Christopher. Bentinho tinha por certo que havia sido traído por Capitu e o leitor é levado a crer que isso realmente aconteceu pelo fato da história ser contada por ele, um ciumento inveterado. O mesmo pode ser dito de Christopher, que se mostra um sujeito obsessivo, mas muito seguro de sua história, de suas verdades. Nunca se sabe se o que ele conta aconteceu mesmo, ou se sua versão é a mais correta. E isso acaba importando pouco, visto que os caminhos pelos quais sua mente percorre são interessantes e seguram a atenção do espectador.

A Vida Privada dos Hipopótamos, ainda que tenha a narração quase exclusiva de Christopher Kirk, tem alguns momentos em que amigos do sujeito são chamados para dar seu testemunho. Se não ajudam muito em descobrirmos o Christopher verdadeiro, pelo menos dão mais indícios a respeito da personalidade do rapaz.

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Por ter apenas 90 minutos de duração, e um personagem tão curioso, o longa-metragem da dupla Maíra Bühler e Matias Mariani nunca cansa o espectador, mesmo que a escolha de manter a câmera tempo demais apenas no protagonista pudesse indicar o contrário. É importante observarmos a expressão corporal e a forma como ele conta sua história, até para tirarmos conclusões mais apuradas de quem Christopher Kirk realmente é. Mesmo que ele mesmo não pareça saber.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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