Aferim!

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Sinopse

Em Aferim!, estamos na Romênia do século XIX. Um policial e seu filho atravessam o continente em busca de um escravo que está em fuga após ter fugido com a esposa de um nobre. O filme retrata a escravidão cigana que existiu no país por seis séculos. Aventura.

Crítica

A onda recente do cinema romeno, presente nos mais importantes festivais do mundo com cineastas premiados, como Cristian Mungiu, Corneliu Porumboiu, Cristi Puiu, entre outros, se notabilizou por compartilhar de um estilo particular. A filmagem crua, em tom quase documental, tratando com dureza a situação social, política e cultural do país, é uma marca presente em boa parte dos filmes produzidos pela Romênia nos últimos anos. Indo na contramão desta tendência, especialmente no que diz respeito à parte estética, o cineasta Radu Jude – que faturou o Urso de Prata de Melhor Diretor em Berlim por este trabalho – resolve direcionar seu olhar ao passado de seu país, utilizando um tom, ao menos aparentemente, mais leve do que o de seus compatriotas e colegas de profissão.

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Os letreiros que surgem sobre imagens em preto branco, ao som da música folclórica romena, servem de anúncio para esta narrativa mais bem-humorada. A primeira cena, um plano estático que acompanha à distância dois cavaleiros descendo calmamente um morro, com o mais velho narrando seus feitos durante a guerra, introduz o aspecto fabular da história, ainda que novos letreiros ao final do longa afirmem que o roteiro tem como base diversos relatos históricos. Estamos na Romênia do século XIX, e os dois cavaleiros em questão são Costandin (Teodor Corban), uma espécie de delegado de polícia da época, e seu filho, Ionita (Mihai Comanoiu), que estão à procura de Carfin (Toma Cuzin), um escravo cigano fugitivo, acusado de ter roubado seu boyar – um nobre, senhor feudal do local.

Fosse um filme ocidental e teríamos uma típica trama de faroeste, com o xerife caçando um fora da lei ou índio. Mas Jude se mantém fiel às suas raízes e realiza um conto de cavalaria, com o homem da lei e seu fiel escudeiro como personagens principais. Através de uma narrativa episódica – o conflito no acampamento cigano, o encontro com o padre, a parada na taberna – o cineasta busca apresentar um panorama da formação de seu povo. Assim, temos os personagens que sempre lembram como os romenos estão destinados a sofrer, apesar de serem fiéis aos mandamentos de Deus, e que não hesitam em mostrar sua repulsa por outros povos, como os ciganos e judeus. A sequência em que o padre lista os defeitos de praticamente todas as nacionalidades europeias resume bem este sentimento.

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O humor empregado por Jude é cínico, caminhando em uma linha estreita e perigosa, já que a maior parte dos momentos cômicos advém do absurdo dos costumes que eram aceitáveis e comuns na época, mas que hoje são repreensíveis, mesmo que infelizmente ainda estejam presentes na sociedade atual. O racismo, o machismo, a misoginia, a intolerância religiosa, tudo é praticado com naturalidade no cotidiano dos personagens, e o cineasta parece crer que essa é uma condição da qual seu povo não consegue escapar. Ao filmar seus protagonistas quase sempre distantes, com raros closes ou planos fechados, fazendo com que se misturem às belas e vastas paisagens, Jude parece não querer dar rostos aos personagens, como se simbolizassem a cultura romena como um todo. O povo e a terra como algo único e inseparável.

A concepção de que os romenos estão fadados a um destino imutável é recorrente, seja para o jovem escravo cigano que não pede por liberdade, mas sim por um dono que o maltrate menos, para a prostituta obrigada a dormir com pai e filho sem intervalos ou para Carfin, um inocente que deverá sofrer com as punições previstas pela lei. E o mesmo vale para Costandin que, apesar de demonstrar algum traço de humanidade – ao menos na comparação com os demais personagens -, prometendo a Carfin tentar convencer o boyar a “apenas dar-lhe algumas chicotadas”, não é capaz de se sobrepor à hierarquia de poder a qual está submetido. Com sua perna manca e tosse cada vez mais grave, Costandin é o retrato de conceitos que, apesar de enfraquecidos, não deixarão de existir tão cedo.

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No ato final, Radu Jade realiza a grande virada em seu arriscado jogo, quando a barbárie se concretiza na tela – mesmo que de forma não gráfica – e humor se esvai. No único momento em que recorre à crueza do estilo citado no início do texto, o cineasta, através do choque, cria no espectador um sentimento de culpa por ter se divertido com as ações condenáveis até então vistas, gerando a reflexão sobre estado da sociedade em geral, não só a da Romênia. O mesmo ocorre com o jovem Ionita, filho de Costandin, que ao se dar conta desta condição, perde os resquícios de pureza que ainda mantinha. Perde a fé. Resta-lhe apenas aceitar sua sina e ouvir o discurso de seu pai sobre entrar para o exército, construir uma família e levar uma boa vida. E, assim, as tradições se perpetuam.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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