A Mulher Que Se Foi

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Sinopse

Em A Mulher Que Se Foi, para Horacia Somorostro, a vida se tornou uma eterna reclusão, uma prisão onde tudo tem sido muito difícil, cruel e inexplicável. Estamos em 1997, ano em que a princesa Diana morreu em um violento acidente de carro. O mundo chora a morte de Madre Teresa de Calcutá. Distante dos holofotes, as Filipinas são tomadas pelo medo, se transformando na capital asiática do sequestro. Drama.

Crítica

Injustamente presa por 30 anos, Horacia (Charo Santos-Concio) sai da cadeia buscando, primeiramente, retomar o contato familiar, sobretudo com os filhos, ainda muito pequenos na época da sua condenação por assassinato. O tempo é um dos principais elementos dos quais se vale dramaticamente o filipino Lav Diaz, não à toa cineasta notório pela extensa duração de seus filmes. Dentro do conjunto, aliás, A Mulher Que Se Foi pode ser considerado “curto”, com seus 228 minutos. Não deixa de ser curioso, portanto, que o início da trama se desvele com tanta objetividade, a despeito até mesmo das longas tomadas que antecedem a soltura da protagonista, importante para que tenhamos logo uma amostra de sua tendência maternal, atributo capital às suas ações e reações. Preocupada no presídio em alfabetizar as demais detentas, ela ganha a liberdade assim que o erro é desfeito pela confissão da colega. Uma vez na rua, além de reconectar-se com os seus, também traça minuciosos planos de vingança.

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O que primeiro salta aos olhos em A Mulher Que Se Foi é a belíssima fotografia em preto e branco, a cargo do próprio Lav Diaz, marcada por uma inteligente variação de níveis de contraste. Seguindo no que tange à imagem, a imobilidade é uma regra pétrea quebrada apenas próximo ao final do longa-metragem, na breve cena, sem muita importância, registrada com uma nervosa câmera na mão. O que verdadeiramente dá dinamismo à narrativa é a soma da movimentação dos personagens no quadro e a montagem que trata de deslocar nosso olhar. Os enquadramentos de Diaz são precisos, milimetricamente pensados justamente para que não seja necessário alterar a perspectiva até cada espaço se esgotar como ambiência. Horacia passa a interagir com uma gama de desvalidos enquanto inicia, sob pseudônimo, a espreita a Rodrigo Trinidad (Michael De Mesa), figurão das redondezas, exatamente o homem que, motivado por ciúmes, armou irresponsavelmente para sua condenação infundada.

Embora transcorra em certos momentos de maneira excessivamente lenta, recorrendo à reincidência de desdobramentos e/ou possibilidades, A Mulher Que Se Foi sobressai, além da exuberância estética, por conta da exposição incisiva da sociedade brutalmente estratificada das Filipinas. Isso ocorre a partir do momento em que Horacia começa a se relacionar mais comumente com Hollanda (John Lloyd Cruz), um travesti que precisa frequentemente de sua ajuda, consequência de ataques epiléticos; com uma mendiga afeita a “denunciar” a presença de “demônios” entre os vizinhos; e com vendedor carismático apelidado de corcunda, que ganha a vida comercializando diariamente uma iguaria típica na fronteira simbólica entre ricos e pobres. Por falar nesse local, ele representa o abismo social que separa as pessoas de acordo com seus ganhos. Se de um lado temos barracos e gente passando fome, do outro, logo adiante, ricaços ostentam seu patrimônio, bem como a segurança que o dinheiro compra.

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A constância de notícias relativas à grande onda de sequestros nas Filipas ajuda a tornar mais nítido o desenho da coletividade local, já que a violência é um dos efeitos colaterais da desigualdade que Lav Diaz deflagra, ora nas bordas no itinerário de Horacia, ora frontalmente, com a constatação da penúria. A Mulher Que Se Foi é uma obra para ser sorvida com parcimônia, ao sabor do ritmo cadenciado proposto por Lav Diaz. Ainda que determinadas passagens se alonguem demasiado, no geral a contemplação vale o quanto pesa. Proibitiva para alguns, a duração do filme se faz sentir apenas em virtude de dispersões ocasionais, mas nada que extirpe o prazer da experiência. Valorizada pela beleza da imagem, temos uma série de manifestações ligadas ao instinto materno da protagonista. Ela acolhe os marginalizados, devolvendo a eles, nem que por poucos instantes, a dignidade há muito negada pela miséria material e existencial, recebendo em troca tudo o que cada um pode oferecer.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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