O Protetor 2

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Sinopse

Em O Protetor 2, criminosos assassinam Susan Plummer, a melhor amiga de Robert McCall e sua ex-colega de trabalho. Obcecado, o agente aposentado, que tem no corpo sua maior arma, pensa apenas em eliminar o bando de assassinos profissionais que destruiu sua vida. Ação.

Crítica

Robert McCall (Denzel Washington) é o equalizador, aquele que supostamente traz equilíbrio a um mundo comandado inexoravelmente pelos fortes (como ele). O Protetor 2, que segue a linha do seu antecessor, começa mostrando esse protagonista em ação, incógnito num trem rumo à Turquia. Desde o princípio, então, há a reafirmação do sujeito como alguém importante, zeloso pelos fracos e oprimidos, que toma para si a missão nobre de exterminar os maus elementos. Se no enredo anterior a incumbência maior era salvaguardar a integridade física da menina que se prostituía pela lucratividade de uma organização mafiosa russa, agora o “afilhado” é Miles (Ashton Sanders), jovem prestes a ser cooptado pelo submundo do crime. Tortuosamente, tudo o que acontece diretamente ligado ao soldado, em tese, aposentado, desta vez trabalhando como motorista de Uber, é menor se comparado à proteção dos desvalidos. Ele é como um anjo salvador, colérico, alinhado a certos pressupostos do Velho Testamento. Quem está sob suas asas, sente-se protegido.

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O fato do personagem de Denzel ser desenhado absolutamente como um misto de justiça, retidão e infalibilidade torna o andamento da trama um tanto destituído de tensão. Por mais que os bandidos sejam treinados, ninguém é páreo para esse homem que, sem mais aquela, cronometra quantos segundos são gastos para subjugar o inimigo. Ademais, a progressão narrativa é claudicante, pois não se decide entre observar Robert inserido numa conspiração que envolve pessoas queridas, com o surgimento de figurinhas carimbadas, ou atentar para essa, digamos, “ação humanitária”, por meio da qual devolve criancinhas para suas mães desesperadas e garante o futuro do vizinho à beira da delinquência. O Protetor 2 é um filme de ação previsível, combalido pela indestrutibilidade mal enjambrada do protagonista. Se o ex-agente escapa facilmente de todas as armadilhas e estratagemas alheios, difícil sentir perigo genuíno, mesmo quando a situação não parece favorecer o seu pensamento rápido e sua ação certeira.

O Protetor 2 se espraia com dificuldade nessas camadas de registro, avançando no que tange à revelação do passado de Robert. O cineasta Antoine Fuqua, que certamente já viveu dias melhores, oferece um espetáculo de ação genérico, compilando elementos e situações já muito observados em outras produções. Aqui, sua carta na manga é Denzel Washington, ator cuja habilidade e talento imensos tratam de sobrepujar as restrições dramáticas que o personagem impõe. O olhar firme e ameaçador de Robert, artificialmente valorizado pela câmera que chega a adentrar sua íris, é mais intimidador que a espalhafatosa capacidade de esfaquear oponentes, deles extraindo sangue e vida. Isso acontece porque o realizador, afoito para demonstrar a letalidade, investe em cenas rápidas, dramaticamente minadas pela montagem métrica. Fruto de uma fórmula praticamente reproduzida de predecessor, este filme investe num terreno seguro e, às vezes, soporífero.

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Antoine Fuqua não esconde as influências do western, pelo contrário, as escancara. O resultado, porém, é mais curioso que necessariamente eficiente. A batalha contra um velho conhecido na localidade evacuada em virtude da proximidade de um furacão é fundada nos duelos típicos do faroeste nas cidadelas, com algozes caindo, um a um, enquanto o protagonista ruma ao encontro do principal antagonista. O enquadramento que remete a Rastros de Ódio (1956), de John Ford, com Denzel emoldurado por uma porta, perdido na própria solidão, estabelece uma ligação direta com o personagem igualmente errante e mordaz de John Wayne. Contudo, essas são apenas piscadelas, sem grandes efeitos para além da homenagem. Fazer o bem é o importante a esse bom samaritano, nem que para isso haja trilhas de sangue e destruição. Para o filme, as boas almas valem a aniquilação brutal dos ímpios. Imprescindível é garantir o sono dos justos, combatendo fogo com fogo.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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