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Sinopse

Em A Lista da Minha Vida, a jovem Alex embarca em uma jornada para realizar seus sonhos de adolescência a pedido da mãe. Nessa aventura, ela acaba por desvendar segredos familiares muito bem escondidos e, por acaso, também encontra o amor ao redescobrir suas raízes. Romance.

Crítica

Comédias românticas não precisam ser surpreendentes. Diferentemente dos suspenses, que dependem da consistência e da renovação constante das dúvidas, nelas o clichê é mais aceito como parte natural do processo. Os finais positivos e as coisas se encaixando “magicamente” para os protagonistas tristes encontrarem a tão sonhada felicidade são comuns. A Lista da Minha Vida é um desses filmes previsíveis. Não há nada nele que o cineasta Adam Brooks deseje esconder. Sabemos de antemão que a jovem Alex (Sofia Carson) completará a missão da qual é incumbida para amadurecer; que o príncipe encantado surgirá quando ela menos esperar; e que as arestas familiares serão totalmente aparadas. Não é prudente esperar desse tipo de obra uma profundidade emocional e/ou psicológica tão significativa, pois é próprio das comédias românticas lidar superficialmente com problemas complexos e alinhar tudo para o espectador terminar a sessão com um sorriso no rosto. Imaginem se Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) terminasse com os personagens de Hugh Grant e Julia Roberts separados? Nem mesmo o mais amargo dos espectadores desejou isso de verdade, mas a qualidade do filme de Roger Mitchell está justamente na graciosidade e inteligência do caminho que leva à confirmação do óbvio. Longe de ser ótimo como o filme citado, esse novo sucesso da Netflix tem os seus predicados.

A Lista da Minha Vida começa com uma jovem recebendo a notícia de que, em breve, sua mãe vai morrer. Mas não é “apenas” a mãe, pois a condenada é alguém com quem Alex foi grudada desde a infância. Numa família com mais dois filhos homens, as duas formaram um pequeno círculo feminino que então está prestes a ser desfeito pela fatalidade. Alex é uma garota meio perdida, namora um rapaz imaturo e está confortável trabalhando na empresa de cosméticos da mãe – mas com tudo isso completamente afastada dos seus sonhos de infância. Então, ao ler o testamento da sua referência que acabou de partir, ela é informada de que para ter a sua parte na herança precisará cumprir as 11 tarefas de uma lista que escreveu na pré-adolescência com desejos para o futuro. A ideia romântica funciona bem aqui: é preciso se conectar com um “eu” do passado e resgatar princípios e objetivos genuínos para não se perder nos protocolos da vida adulta. Então, Alex precisa aprender a dirigir, tocar uma música específica no piano, se reconciliar com o pai de quem está bastante afastada, se expor publicamente num palco de stand up e, por fim, encontrar o amor verdadeiro. O cineasta Adam Brooks, também autor do roteiro, poderia fazer dessa versão adocicada dos 12 Trabalhos de Hércules uma jornada mais instigante, mas a utiliza apenas como desculpa para construir um discurso fofinho sobre amadurecimento e amor.

Sabemos de antemão exatamente tudo o que vai acontecer. Quando Alex começa a ter atritos com o advogado bonitão incumbido de executar o testamento da mãe, Brad (Kyle Allen), não é preciso ter muita experiência no terreno das comédias românticas para saber onde está o seu amor verdadeiro e no que aquela relação ruidosa vai acabar. Também não é difícil imaginar que os problemas familiares, as inabilidades e os obstáculos enfrentados com crianças vulneráveis na hora de voltar a lecionar serão ultrapassados pelo bem do “felizes para sempre”. A maneira como essas obviedades são construídas é típica das comédias românticas, então nada a reclamar quanto ao quesito “previsibilidade”. Mas, então o que pode (ou não) significar a qualidade de um filme como esse que não depende da surpresa ou mesmo de qualquer ousadia formal é a construção do percurso até chegar às respostas evidentes. O quão delicioso é acompanhar as desventuras amorosas de Alex e seu gradativo amadurecimento enquanto vai ticando os itens da sua lista adolescente? Entre convenções e facilidades demais, o filme tem o seu charme e conseguindo entreter (sem nos aborrecer) por um pouco mais de 120 minutos. Alex tem uma personalidade carismática e é bem delineada por Sofia Carson como alguém que precisa compreender determinados cenários para finalmente se emancipar e encontrar sua paz interior.

Há uma coisa curiosa no discurso de A Lista da Minha Vida. Dois itens fundamentais para Alex alcançar a felicidade são: 1) se reconciliar com o pai; 2) encontrar o amor verdadeiro. E ambas as dinâmicas são atreladas à necessidade de a protagonista valorizar os homens estáveis. Senão vejamos. Quando Alex descobre ser filha adotiva do sujeito com quem vive às turras, ela decide ir atrás do pai biológico com quem nunca teve contato. O que está implícito na resolução disso tudo é justamente que ela precisa dar valor ao sujeito de comportamento sólido que sempre esteve ao seu lado, deixando de lado as fantasias com o indivíduo que apenas forneceu material biológico à sua concepção. Algo semelhante acontece na relação de Alex com os namorados. Depois de abandonar o nerd crianção que sonhava em lançar um jogo de videogame, ela se engraça com Garret (Sebastian De Souza), alguém que parede preencher todos os requisitos esperados de um “amor para toda a vida”. Mas, como sabemos, ela deve ficar com Brad, então Garret é retirado de cena de modo um tanto abrupto e meio gratuito em prol do príncipe correto – não à toa, um homem estável que combina características do primeiro namorado dela (uma leveza quase juvenil) com algumas do segundo (especialmente a solidez profissional). Então, no fim das contas, o filme é demasiadamente guiado por preceitos tradicionais, especialmente no que diz respeito ao amor e ao sucesso, mas ainda assim tem atributos suficientes para agradar.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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Marcelo Müller
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Miguel Barbieri
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MÉDIA
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