
Crítica
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Sinopse
Corações Prometidos acontece na Indonésia. Nele, a jovem Niyala realiza seu sonho de criança: se tornar uma médica. No entanto, respeitando os costumes locais, sua família lhe joga em um casamento arranjado. Frustrada, ela, de repente, vê sua vida lançada ao caos total. Romance.
Crítica
Há várias culturas nas quais são comuns os casamentos arranjados. O cinema já contou inúmeras histórias de amor contrárias a esses acordos entre famílias que não levam em consideração os sentimentos dos noivos. Afinal de contas, o que importa é o amor, aquilo que se sente e, principalmente, a liberdade individual de escolher um(a) companheiro(a) de acordo com critérios próprios. Em Corações Prometidos há dois matrimônios arranjados vistos como empecilhos para o mocinho e a mocinha finalmente ficarem juntos. Os amigos Niyala (Beby Tsabina) e Faiq (Deva Mahenra) foram criados numa pequena vila de pescadores no interior da Indonésia. A partir de determinado ponto da infância, os dois se mudaram com a mãe dele para a capital Jacarta a fim de estudar. Desse modo, cresceram com uma cumplicidade enorme, semelhantes a irmãos de sangue compartilhando brincadeiras como a adivinhação do conteúdo das marmitas preparadas para o recreio. Se você assistiu a pelo menos meia dúzia de comédias românticas com características semelhantes captará imediatamente o que o filme quer nos dizer com a construção desse vínculo: Niyala e Faiq estão destinados um ao outro, são almas gêmeas. No entanto, quando eles crescem, parece que apenas Niyala nutre sentimentos românticos por Faiq. Isso até que ela anuncie estar noiva de um antigo desafeto para salvar o seu pai endividado.
A trama nos apresenta dois casamentos arranjados: o de Niyala com Roger (Dito Darmawan), o filho do gângster que chantageia uma família por causa de dívidas, e o de Faiq com Diah (Caitlin Halderman), a jovem simpática que preenche os requisitos esperados de uma esposa dentro da tradição indonésia. Como sabemos de antemão que a felicidade não será plena se esses casórios acontecerem, Corações Prometidos é um emaranhado de acontecimentos que tendem a levar ao desmanche dos noivados para os pombinhos principais finalmente atenderem ao coração e ficarem juntos. Nada a reclamar da previsibilidade, elemento comum nas comédias românticas, sejam as produzidas em Hollywood ou mesmo no país asiático do qual temos poucos exemplares no nosso circuito comercial para formar uma ideia consistente de cinematografia. Porém, o primeiro grande problema do longa-metragem dirigido por Anggy Umbara é a incapacidade de conviver minimamente com o silêncio. O enredo é quase totalmente embalado por músicas chorosas, daquele tipo que chantageia as nossas emoções ao ressaltar momentos naturalmente dramáticos. Se um malvado anuncia algo ruim, a trilha sonora aumenta como se trovejasse sobre os personagens. Se um bonzinho festeja uma vitória, a trilha sonora cresce melodramaticamente como se estivesse tocando as trombetas para um vencedor de maratona. E isso acaba cansando.
Aliás, se Corações Prometidos fosse um daqueles filmes da época do cinema mudo que eram acompanhados por um pianista ao vivo, certamente o músico sofreria de exaustão ou precisaria haver um revezamento. A quantidade de músicas que entram e saem de cena é realmente desproporcional e tem apenas uma intenção: reiterar o que está sendo dito e mostrado, talvez, com o intuito de desviar a atenção de um espectador mais criterioso das fragilidades narrativas de um filme que nem consegue assumir as suas posturas. É sabido que o casamento arranjado é parte da tradição local, um pilar da estrutura religiosa muçulmana. Mas em nenhum momento essa dinâmica de escolher pares para os filhos é realmente questionada/criticada como problema, mesmo que o grande obstáculo para os protagonistas ficarem juntos seja justamente a continuidade da tradição. Anggy Umbara “consegue” contar uma história com elementos subversivos, mas ainda assim se manter muito fiel aos costumes que ele parece tentar (em vão) criticar em alguma medida. Senão vejamos. Niyala e Faiq frequentemente reafirmam o quanto são religiosos, nunca questionando isso em prol da prosperidade almejada. Os dois sofrem pelos noivados combinados, mas nunca os percebem como parte dos padrões que eles próprios reforçam. E, para coroar o maldisfarçado elogio à religiosidade, o vilão chega a zombar dos crentes como pessoas facilmente manipuláveis. Portanto, o mau não tem Alá no seu coração.
Corações Prometidos é um romance açucarado que demora a desenvolver certas situações, isso enquanto se alonga mais do que deveria (também) por criar cenas sem qualquer importância. Por exemplo, o desmaio da mãe de Faiq não serve para nada, a não ser, involuntariamente, para dinamitar a nossa crença na capacidade de Niyala como médica. Sim, porque quando a segunda mãe perde as forças diante da garota recém-formada, esta sai pedindo socorro como se não fosse médica. Ué? Algo semelhante acontece quando ela recebe os pedidos de ajuda de pais carregando uma criança gravemente doente. Há momentos em que o filme cria pequenas situações aparentemente inúteis, mas que no fim das contas servem para ressaltar os valores dos protagonistas, o quanto eles merecem ter um desfecho feliz. Há um componente moralista na forma como as coisas se encaixam providencialmente para Niyala e Faiq ficarem juntos. Sem contar que eles são privados de escolhas na maior parte do filme, o que diminui os dilemas morais dos personagens. Tudo vai simplesmente se encaixando. Voltando ao elogio subliminar à religião, o evento que determina o “felizes para sempre” é justamente uma lei islâmica gritada pelo destino quando tudo parecia perdido. Seria melhor se o filme assumisse que não está questionando as tradições, mas arrumando um jeito de mostrar que dentro delas há felicidade.
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