Crítica
Leitores
Sinopse
Crítica
O máximo que se pode dizer de Irmãos de Honra é: trata-se de uma produção bem intencionada. Porém, a sua abordagem anacrônica não encorpa a discussão sobre o racismo (o tema principal). Bem intencionada, porque lança luz sobre a discriminação racial, assim engrossando as fileiras das ficções que condenam as violências decorrentes dos preconceitos. O discurso é bem-vindo. Anacrônica, porque utiliza mecanismos e, sobretudo, um ponto de vista que não contempla as demandas recentes por narrativas empoderadoras, exatamente as que refutam a limitação da negritude às simples posições de vítima e heroína. Há algum tempo, quando o cinema começou a discutir racismo, fazia sentido privilegiar a denúncia em meio a trajetos de aprendizados. Mas em 2022 essa atitude cinematográfica está mais do que ultrapassada. O protagonista da trama baseada em fatos deveria ser Jesse (Jonathan Majors), jovem militar norte-americano que está se preparando para fazer História (sem saber disso): ele será o primeiro piloto negro em combate pela Marinha dos Estados Unidos. No entanto, o verdadeiro personagem principal é Tom (Glen Powell), o novato que se torna rapidamente amigo de Jesse, seu companheiro de voo e rotina. Tudo acontece no filme para que esse homem branco receba lições valiosas sobre humanismo e se torne alguém melhor. A dor do homem negro serve de motivação e protótipo.
O cineasta J.D. Dillard faz com Irmãos de Honra um filme lento (não no sentido bom) que perde boas oportunidades para aproveitar a iminência da Guerra da Coreia como pano de fundo à observação do racismo existindo dentro de uma instituição militar. Mesmo que Tom apareça menos em cena do que Jesse, ainda que ele seja basicamente uma folha em branco (sem passado, tampouco características tão marcantes), o homem loiro se torna o motivo de ser do longa-metragem. Isso porque Tom representa o espectador “inocente” quanto ao racismo (isso existe?), aquele que até possui conhecimento sobre as brutalidades cometidas em nome da intolerância, mas que vai compreender essa selvageria somente quando um amigo for afetado. O realizador poderia utilizar melhor as mudanças de paradigma que começavam a entrar em curso nos anos 1950 – e que culminaria com movimentos antirracistas nos anos 1960, entre eles os famosos Panteras Negras e os liderados por Malcolm X e Martin Luther King Jr. No entanto, a história se concentra nesse sujeito quebrando aos poucos as cascas de desconfiança do colega que baixa a guarda e com isso oferece a ele uma experiência transformadora. Sim, tudo gira em torno das dificuldades enfrentadas pelo homem negro a fim de que o homem branco evolua como ser humano. Boas intenções, sem dúvida, exatamente do tipo que o inferno está lotado.
Tom oscila entre ser um white savior (o branco salvador) e o papel do amigo que permite uma convivência ecumênica e interracial com a sua “humanidade tolerante”. Voltando a interpretar um piloto de aviões de caça – depois de Top Gun: Maverick (2022) –, Glen Powell (o loiro de olhos claros da vez em Hollywood) dá vida burocraticamente ao homem que defende o amigo do racismo dos colegas de infantaria, aprendendo como ele formas de ser descolado numa farra inesperada na Riviera francesa, assimilando o heroísmo e o bom-mocismo de Jesse como exemplos a serem seguidos. Além de receber lições diretas sobre companheirismo. Em meio a isso se aproxima do ideal antirracista, da noção de que é preciso se revoltar contra a discriminação. Tudo o que Jesse faz, das ações aos exemplos diários, serve para o personagem branco galgar degraus rumo à evolução pessoal. E esse aspecto de um antirracismo pedagógico e sentimentalista é visível em dinâmicas como: Jesse defendendo o seu direito a cuidar sozinho de si próprio; e Jesse revelando ao novo amigo a utilização dos xingamentos como ignição de sua motivação. Como se trata de uma figura a ser seguida, Jesse é construído como homem sem arestas a aparar: pai de família ilibado, marido fiel e apaixonado, piloto que luta bravamente contra medos, companheiro para todas as horas. O modelo pouco disruptivo, pois conservador.
Irmãos de Honra fica martelando nas mesmas questões durante os seus praticamente (e longos) 140 minutos: amizade, honradez, antirracismo e sacrifício em prol daqueles que amamos. Tudo fica concentrado nesses aprendizados burocráticos e frequentes que tornam Jesse um professor gradativamente apagado, enquanto Tom vira o aluno não menos pálido cinematograficamente. Tanto que o cineasta se esquece de (não consegue?) injetar intensidade dramática nas cenas de ação. Os momentos de voo e combate são realizados em sua maioria por meio de efeitos digitais, o que retira a aura de veracidade que, por exemplo, faz de Top Gun: Maverick uma experiência visceral. Outro ponto quase irrelevante é o entorno imediato de Jesse e Tom, especialmente os companheiros leais de grupamento. Nenhum deles tem espaço suficiente para, ao menos, defender sua importância ao andamento do enredo. Em outros filmes de estrutura similar, esse espectro coadjuvante, no mínimo, oferece sustentação em termos de paisagem humana por meio de arquétipos (o piadista, o romântico, o galã, etc.). Definitivamente, não é o que acontece por aqui. Ao ponto de uma celebridade como o ator/cantor Joe Jonas passar praticamente despercebido. O saldo é uma experiência com poucos instantes memoráveis (a reunião dos marinheiros negros no convés é a exceção que confirma a regra) e uma perspectiva anacrônica.
Últimos artigos deMarcelo Müller (Ver Tudo)
- Mostra de Gostoso 2024 :: Filme sobre Maurício Kubrusly abre a 11ª edição do evento potiguar - 21 de novembro de 2024
- Piracicaba :: Filme de 1922 é restaurado e ganha sessão especial no interior de SP - 21 de novembro de 2024
- Agenda Brasil 2024 :: Até que a Música Pare e A Queda do Céu vencem a 11ª edição do festival italiano - 21 de novembro de 2024
Grade crítica
Crítico | Nota |
---|---|
Marcelo Müller | 4 |
Francisco Carbone | 7 |
Alysson Oliveira | 4 |
MÉDIA | 5 |
Olá, André, tudo bem? Seu comentário dá uma boa conversa. Nosso (o meu e o seu) conceito de cinema diverge, pois não acredito que o cinema exista apenas para entreter. Quanto às pautas de igualdade (e o racismo é um dos assuntos do filme), não me parece que elas deveriam ser preocupação apenas "da esquerda" ou então assumiremos que o pessoal mais "à direita" não está nem aí para temas como racismo, machismo, homofobia, etc. Quero acreditar que, independentemente da posição política, todos queremos um mundo mais igualitário e justo. Grande abraço e obrigado pela leitura.
Cinema é para entreter. Quem quer ver lacração vai num comício da esquerda. Vou assistir com base na avaliação negativa de lacração. Obrigado, crítico militonto.