Primavera

Crítica


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Sinopse

Em Primavera, Cecília é uma talentosa violinista que vive no Ospedale della Pietà, em Veneza, no século XVIII, instituição conhecida por sua prestigiada orquestra feminina. Acostumada a tocar para a elite da cidade sem jamais deixar os limites impostos à sua condição, ela vê sua vida mudar com a chegada de um novo professor de violino: Antonio Vivaldi. Música.

Crítica

O título faz referência, obviamente, à clássica sinfonia “As Quatro Estações”, escrita por Antonio Vivaldi em 1723. Primavera poderia dar a entender, portanto, se tratar de uma cinebiografia do famoso compositor italiano. Mas não chega a tanto, nem em ambição, e menos em profundidade lírica. Afinal, o autor é não mais do que um coadjuvante, alguém que vai entrar na trama após quase um terço do enredo ter se desenvolvido, sem confirmar alcance além do que havia sido determinado com antecedência. Pois a verdadeira condutora é Cecília, uma jovem órfã abandonada pelos pais e criada em um convento de freiras no interior da Itália nos primeiros anos do Século XVIII. É lá onde, para ocupar corações e mentes dessas garotas que eram vistas como não mais do que um produto a ser comercializado pela Igreja, que ela acabará descobrindo sua paixão pela música, um envolvimento tamanho que irá determinar seu próprio destino. Vivaldi, portanto, pode até ter servido como catalisador. Mas essa, definitivamente, não é sua história. O que no final até poderia ter sido uma boa surpresa.

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A expectativa gerada, no entanto, não chega a se confirmar. Para quem acompanha o cinema italiano em particular, de imediato irá identificar uma proximidade entre este longa de Damiano Michieletto e o quase contemporâneo – porém anterior – Gloria! Acordes para a Liberdade (2024), de Margherita Vicario. Em ambos, a vida nestes ambientes controlados pela fé religiosa é punitiva e sem esperanças, sendo os únicos momentos de alívio e prazer oriundos justamente desse encontro com a arte. Porém, se os dois filmes se passam com décadas de diferença, e esse mais recente se outorga uma importância maior por envolver um nome que ainda hoje encontra admiração, o primeiro não apenas era mais original, como também ousado, combinando sequências que flertavam com o cinema musical para ilustrar a efervescência criativa dessas meninas enclausuradas. Os dois tinham um pé na crítica a esse passado nem tão distante, como outro na imaginação como válvula de escape de um cenário de humilhações, abusos e tristezas. E se nenhum alcança com plenitude seus objetivos, esse atual ainda perde pontos por se apresentar na sequência de outro discurso por demais semelhante.

Se há um motivo que livra Primavera de uma decepção maior é a presença intensa de Tecla Insolia – indicada ao David di Donatello (o ‘Oscar’ da Itália) por esta performance, prêmio esse que havia conquistado pela primeira vez apenas um ano antes). No papel de Cecília, dá vida a uma jovem disposta a tudo, inclusive ao próprio sacrifício, se este por fim representar a permanência de sua afeição pela prática musical. Que se entenda o contexto: todas as órfãs eram colocadas para, além de trabalhos ditos femininos – cozinha, costura, limpeza – a também se dedicarem ao aprendizado e aperfeiçoamento de um instrumento musical. O compositor era contratado por cada paróquia como responsável pelas melodias que as meninas deveriam apresentar durante as missas. Mas que se observe: o talento delas deveria ser tão elevado, quanto misterioso. Suas performances eram às escondidas, longe dos olhos dos fiéis, que apenas poderiam escutá-las. Isso acontecia porque cada uma era negociada pelo padre juntos aos solteiros endinheirados da região, que pagavam para levá-las como esposas quando lhes fosse conveniente.

Mas Cecília não quer ir embora. Quando o velho compositor é demitido por não conseguir mais se mostrar hábil em conquistar – ou mesmo manter – o interesse dos atendentes, que começaram a se dispersar em direção a outras congregações, quem é chamado para substituí-lo é Vivaldi, nesse ponto ainda um talento em busca de reconhecimento – e de um meio para se manter. A atuação de Michele Riondino (Palazzina Laf, 2023) é por demais comedida, até mesmo invisível em determinadas passagens. Isso é prejudicial ao entendimento de sua influência sobre Cecília. A relação entre os dois nunca se mostra intempestiva, dada a rompantes, seja do lado dele, ou por iniciativa dela. Quando ela se aproxima, é com cuidado e atenção. Quando ele é provocado, opta por se calar. A audiência percebe o que acontece mais pelo anunciado, do que pela (falta) de dinâmica entre os personagens. A vontade dela não estava em se tornar esposa e mãe. O que ambicionava era ser como o mestre, também ansiava por ser vista como artista. Mas quem se importava com o que uma mulher poderia desejar no início dos anos 1700?

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Anciões gananciosos, mulheres que se colocavam contra outras para favorecer homens que seguem no poder e muito pouco – ou nada de fato – sobre o que teria levado Vivaldi a compor “As Quatro Estações” – ou mesmo os versos sobre a estação primaveril – estão distribuídos por grande parte da narrativa de Primavera, um filme que tem como premissa um contexto histórico por demais intrigante e perverso, inclusive pela maneira como segue ressonando até os dias de hoje, mas termina por se contentar em ser não mais do que uma testemunha apática da luta dessa garota por ser ouvida. Nem mesmo uma aparição tardia de Stefano Accorsi – com quem Insolia formou par romântico em Amada (2025) – consegue salvar o conjunto do seu aspecto genérico, por mais que suas aparições em cena, como o marido ultrajado pela plano da jovem, consigam elevar minimamente as tensões com o pouco que lhe é proporcionado. Eis, enfim, um discurso que desde o começo escolhe altos padrões nos quais se apoiar, mas falha no seu desenrolar em se mostrar apto – ou mesmo à altura – de tais comparações. A curiosidade gerada nunca se sustenta, num atestado de oportunidade perdida.

Filme visto durante a 13a 8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali, em junho de 2026

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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