Crítica
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Sinopse
Crítica
Num primeiro momento, parece que Santo Amaro Era Skatista vai ser, pura e simplesmente, um documentário sobre a história de superação do jovem Ademar Luquinhas, que teve sua vida transformada pelo esporte. O diretor Felipe Martins desenha um percurso retilíneo para contar um pouco da trajetória do menino nascido e criado na comunidade Santo Amaro, na Zona Sul do Rio de Janeiro, que chamou a atenção de um entusiasta enquanto manobrava nas ruas do Catete, bairro vizinho. Contudo, na medida em que o filme avança, percebe-se a intenção de, antes de qualquer coisa, centralizar a história do protagonista numa realidade socialmente carente, fazendo dele um exemplo, mas sem descuidar do delineamento da conjuntura que o cerca. Sente-se, todavia, um desequilíbrio entre essas dimensões macro e micro, no mais, em comunicação franca, mas que, ocasionalmente, solicitam autonomia.
Há um dinamismo na maneira como o realizador traça o roteiro a partir da determinação de Luquinhas de construir uma pista de skate em Santo Amaro. A ideia dele é proporcionar aos jovens da localidade uma real alternativa de crescimento. Aparentam gratuidade os diversos instantes em que o próprio atleta empunha a câmera, se encarregando de registrar parte do cotidiano que ao filme é bastante importante como estofo contextual. Mas, lá adiante, quando abordada a inflamação que leva o garoto prodígio a deixar as competições e a investir num canal virtual dedicado a gerar conteúdo audiovisual focado no meio, essa opção inicialmente estranha se justifica totalmente. Santo Amaro Era Skatista perde diversas oportunidades de extrair mais que a mera informação da movimentação de Luquinhas, negligenciando, inclusive, a relevância de suas iniciativas à valorização dos profissionais periféricos envolvidos com skate.
Há outros desperdícios pontuais, como a falta de disposição de encarar as questões de ordem burocrática, estritamente ligadas ao poder público, quando Luquinhas mergulha fundo nos planos da construção da pista em Santo Amaro. Mas, mesmo assim, o documentário logra êxito em valorizar os esforços de um pequeno empreendedor disposto a proporcionar às crianças de sua comunidade o que outrora alguém fez por ele. Embora os elos, cinematograficamente falando, sejam frágeis – vide a ausência de um encadeamento mais claro dos eventos que levam a determinadas instâncias, como as estadias em Berlim –, Santo Amaro Era Skatista consegue capturar sensivelmente o ímpeto benfeitor de Luquinhas, observando-o como parte proeminente do todo. Dentro da abordagem da importância desse protagonista, a Festa do Ademar, um de seus carros-chefes, é visto somente com curiosidade.
Santo Amaro Era Skatista apresenta um personagem absolutamente carismático, não se atendo, de determinado ponto em diante, numa cronologia muito definida. Os vieses se alternam. Assim, o resgate da carreira de Luquinhas está na base da relevância de sua vontade inabalável de levar o skate ao morro, tratando de oferecê-lo como veículo de socialização, sobretudo às crianças carentes, como ele foi um dia. Felipe Martins parece relativamente perdido entre tantas possibilidades. Mesmo desprovido de um eixo mais sólido e claro, o filme equilibra bem as entrevistas tradicionais e os apontamentos do cotidiano de Luquinhas, demonstrando pouca inventividade, gramaticalmente falando, mas sendo bem-sucedido na proposta de esquadrinhar um agente local, inserido numa favela carioca, a partir de suas atitudes, não apenas de um discurso eventualmente corroborado por amigos e família.
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