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Sinopse

Um povo traído pelo governo e por aliados. Crentes que estavam a salvo dos nazistas, os Braude têm seu destino selado com a chegada de tropas alemãs. O destino, assim como de vários judeus perseguidos na Segunda Guerra Mundial, é o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

Crítica

O trauma da Segunda Guerra Mundial, principalmente no que diz respeito ao Holocausto judeu, foi mais do que explorado no cinema, tanto em obras referenciais, como em tantas outras facilmente esquecíveis. Porém, o ressurgimento de fake news, tentativas de reescrever a história, alterações dos fatos, fanatismos religiosos e práticas fascistas tornam essa repetição não apenas necessária, mas urgente. Afinal, relembrar é não apenas viver, mas também um alerta. Nesse contexto, um drama como Traídos Pela Guerra se mostra mais do que justificado, tanto pela mensagem que carrega, como também pela forma como a dispõe em cena. Baseado em um episódio verídico, o longa de Eirik Svensson evita com habilidade cair em um melodrama barato, da mesma forma como consegue manter sua força como denúncia, mas também como registro de uma passagem tão pouco honrosa da humanidade.

No centro da ação está a família Braude, com pais e filhos, todos já adultos. Se em 1942 a Noruega acabou cedendo à pressão alemã e atuando ao lado dos invasores na caça e aprisionamento de seus cidadãos judeus, desde antes se anunciava o destino que dessa população se aproximava. A questão era, no entanto, como acreditar que tamanha tragédia e desgraça pudesse, de fato, se suceder? Afinal, essas pessoas que se encarregaram de, primeiro, registrar os que passaram a ser considerados inimigos, para logo em seguida assumir postos e funções que, de uma forma ou de outra, contribuíram para o extermínio de uma faixa significativa daquela comunidade, eram as mesmas que até pouco tempo estavam lado a lado, seja nos mercados, farmácias ou mesmo calçadas. Em uma passagem significativa, uma mãe judia, angustiada pela falta de notícias, bate à porta de um oficial da polícia em busca de informações. Seu apelo se dá em nome da “boa vizinhança”, como ela mesma diz. A resposta dele é um teatro, um desenrolar de falsidade que se compadece pela frente, enquanto apunhala pelas costas.

Charles Braude (Jakob Oftebro, de A Aventura de Kon Tiki, 2012) é o coração de sua casa. Adorado pelos irmãos, admirado pelo pai e cobrado pela mãe, é sucesso no ringue, onde atua como lutador profissional, e também sente que sua vida está no rumo certo ao se apaixonar por Ragnhild (Kristine Kujath Thorp), a quem pede em casamento – e é correspondido. Os dois passam a morar no apartamento de cima, e tudo parece correr bem. No entanto, as notícias do que está se passando no continente – e as probabilidades cada vez maiores de que o mesmo se repita entre eles – eram constantes. Ou seja, o que veio a acontecer não pegou ninguém desprevenido – por mais que essa tenha sido a sensação geral. Porém, elementos como a distância geográfica e a demora em de fato colocar em ação práticas até pouco tempo consideradas nefastas meio que anestesiou reações mais exaltadas. Os que estavam atentos, trataram de agir por si e pelos seus. Já os demais, quando se deram conta do perigo, talvez fosse tarde demais.

É mais ou menos o que acaba acontecendo com os Braude. Primeiro são levados os homens, depois as mulheres e crianças. Ragnhild era ariana e, por isso, seguiu em liberdade. Mas, de longe, pouco podia fazer. Por mais que o terreno seja o da ficção, no entanto, esta não é uma história de meninos de pijamas listrados que fazem amizades do outro lado da cerca, de exímios pianistas ou falsificadores habilidosos que conquistaram a simpatia dos seus captores, ou qualquer coisa do gênero. Svensson até parece brincar com essa possibilidade quando, em um campo de concentração, Charles desperta a curiosidade de um oficial nazista ciente do seu passado como lutador. Quer que se apresente para entretenimento dos militares O homem, sem ter como reagir, desprovido de tudo que lhe era caro, chega a considerar a proposta. Mas vem do pai o aviso: “você não é nada para eles, não mais do que um brinquedo. Não dê a única coisa que possui para quem tanto mal está nos fazendo”. Eles resistem, portanto. Mas como os livros de história e os relatos dos sobreviventes atestam, foram poucos os que assim se mantiveram até o fim.

A Noruega foi uma das últimas nações europeias a terem cedido ao avanço das tropas de Adolf Hitler. Era considerada estratégica pela posição portuária junto ao Mar Báltico e pelas grandes quantidades de minério de ferro que puderam ser exploradas pelas forças de guerra. Por mais que tenha resistido, o país acabou cedendo e foi ocupado de 1940 até 1945. Traídos Pela Guerra concentra sua atenção principalmente nos primeiros judeus a serem encarcerados, e no envio desses ao campo de Auschwitz, na Alemanha, pelo navio Donau. Das quase oitocentas pessoas despachadas dessa forma, menos de quatro dezenas conseguiram escapar com vida. Dentre essas estava um Braude, e somente por isso esta história pode, agora, ser contada. Seja pela ausência de arroubos hollywoodianos ou pelo desfecho agridoce que contraria muitas das expectativas, mas vai de encontro a um ponto de vista maduro e reflexivo a respeito do incidente, tem-se aqui um projeto de valor próprio, o que por si justifica um olhar atento.

 

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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