A Vida Útil

Crítica


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Sinopse

Em A Vida Útil, Jorge tem 45 anos, mora com os pais e trabalha há 25 anos na Cinemateca de Montevidéu, onde elabora a programação de filmes, presta suporte técnico e apresenta um programa sobre cinema em uma estação de rádio. Sua vida se resume ao trabalho e à família, sendo que ele jamais trabalhou em outro lugar. Até que, um dia, ele é demitido quando a Cinemateca é obrigada a fechar as portas. Sem saber o que fazer, ele precisa encontrar um meio de encontrar utilidade para sua própria vida. Drama.

Crítica

“(…) nós, que corremos por todos os cantos de Paris para rever e rever essas sombras luminosas que foram e continuam a ser nossos amores, nós, que encontramos nos cineclubes nosso curso noturno, nossos sonhos, nossas referências e nossos livros (…) devemos ter pelo cinema as fraquezas e exigências de um amante pela sua mais bela amante.” (Christian Bourgois)

O trecho acima faz parte da carta endereçada a François Truffaut por um famoso editor francês, em dezembro de 1956. Com a compulsão de uma obsessão e a disciplina de uma seita, a descrição não deixa dúvidas quanto ao procedimento que se costumou denominar “cinefilia”.

La vida util3 creditos VitrineFilmes

Se o termo tem o seu tratado escrito em Cinefilia, do ex-editor da Cahiers du Cinéma, Antoine de Baecque, e foi às telas muito bem representado por Os Sonhadores (The Dreamers, Bernardo Bertolucci, 2003), o cinema uruguaio nos permite um olhar renovado sobre essa atividade ou paixão – esse vício.

Na cena inicial de A vida útil, os correios trazem uma remessa de filmes. Eles chegam aos montes há muitos anos, de inúmeros destinos. O pacote trouxera a última leva de diretores islandeses. Possivelmente desconhecidos inclusive na Islândia, os nomes não são estranhos a Jorge, gerente de programação, e a Martínez, diretor da Cinemateca do Uruguai. Os semblantes inexpressivos, os nomes indiscerníveis, a filmografia periférica e o respeito à causa estabelecem, no primeiro momento do filme junto ao espectador, o traço humorístico característico do cinema uruguaio atual, em que a tragédia e o inusitado produzem graça. Foi assim em 25 Watts e Whisky (Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, 2001 e 2004), em Hiroshima: Um musical silencioso (Pablo Stoll, 2009) e em Gigante (Adrián Biniez, 2009).

A partir desse instante, acompanhamos o personagem Jorge (interpretado por Jorge Jellinek, crítico de cinema na vida real) e os momentos decisivos da sua relação com a Cinemateca. Os tempos são outros. Por uma série de fatores, a arte da sala escura não atrai multidões, como veremos na sessão especial de diretores nacionais, ou desperta paixões, como as de Matthew (Michael Pitt) em Os Sonhadores ou a de Bourgois. A cinefilia ocupa um espaço sentimental, pois se alimenta de um material incontestavelmente pessoal. Jorge, porém, levou-a ao extremo, confundindo-a com uma profissão; confundiu-a com a vida. Gerações de Jorge. Em Santiago (João Moreira Salles, 2007), o narrador nos conta que o seu mordomo, título do documentário, tocava piano usando smoking. Intrigado, perguntou-lhe o motivo: porque é Beethoven, respondeu ele. Assim como Santiago, Jorge fecha o último botão da camisa e veste gravata para dirigir-se a uma dezena de espectadores. Toda paixão produz reverência.

Mas a reverência dissimula a realidade. Quando esta se impõe, Jorge e Martínez (Manuel Martinez Carril) estão frente a frente com o diretor da Fundação que financia a Cinemateca. Financiava; ao constatar que o espaço de preservação e divulgação de filmes não é lucrativo, decidiu cessar o apoio. Não é possível manter algo dispendioso. O argumento e a ilusão são os mesmos em todos os lugares, sempre equivocados: a cultura deve dar lucro.

A interpretação de Jellinek é pontual, minimalista. Ator alto e de postura ereta, a imagem transmite resquícios da altivez de outrora. Agora, diante de Paola (Paola Venditto), pretendente à dura tarefa de substituir Bibi Andersson ou Romy Schneider, a sua profissão é, como a película, um eco anacrônico e melancólico. E ele é a sua profissão.

vidautil

Segundo longa-metragem de Federico Veiroj, que em nada lembra o primeiro trabalho, Acné (2008), A vida útil recebeu afagos constantes da crítica, com a qual estabelece uma relação estreita. Está longe, porém, de ser um filme de cinéfilo para cinéfilos. As referências estão espalhadas pela narrativa – da escolha do preto-e-branco à trilha de No tempo das diligências (1939), de John Ford –, mas não obstruem a história da superfície: o protagonista em busca de substituir o vazio deixado pelos 25 anos de Cinemateca.

No prólogo, somos alertados de que o que será visto não está alicerçado em fatos reais. É uma maneira elegante de chamar atenção para a realidade. O melhor cinema sempre preferiu a alegoria e o figurativo à denúncia panfletária.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Tem formação em Filosofia e em Letras, estudou cinema na Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acumulou experiências ao trabalhar como produtor, roteirista e assistente de direção de curtas-metragens.
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